Direito de Sambar - Adriana Moreira

O ano de 1997 nem bem começava e já começava mal. Logo no dia 3 de janeiro morria o compositor baiano Oscar da Penha, o Batatinha, aos 72 anos de idade.

O primeiro samba de Batatinha que ouvi foi “Só eu sei”, gravado por Maria Bethânia em 1965, em seu primeiro disco. Depois, a própria Bethânia “me” mostrou “Toalha da saudade”, “Imitação” e “Hora da razão” no maravilhoso show “Rosa dos Ventos” – lançado em disco em 1971 - e “O circo” – no disco “Drama”, de 1972. Em 77, Caetano Veloso gravou “Hora da razão” no disco “Muitos Carnavais” e, em 97, Bethânia regravou “Imitação” em seu disco “Imitação da Vida”.

Batatinha mesmo gravou muito pouco, o que não o faz diferente dos grandes sambistas de sua geração. Em 1976, lançou pela Continental o LP “Toalha da Saudade”, relançado em CD em 2002 na série “Arquivos Warner”, supervisionada pelo titã Charles Gavin. E, no ano seguinte à sua morte, foi lançada a antologia “Batatinha – Diplomacia”, produzida por Paquito e J. Velloso, com as últimas gravações realizadas pelo compositor pouco antes de morrer e, ainda, com participações especiais de Bethânia, Caetano, Gil, Jussara Silveira e Chico Buarque. Em 2001, foi lançada em CD a participação de Batatinha – ao lado de Riachão e Ederaldo Gentil – no programa “MPB – Especial”, gravado em maio de 1974 pela TV Cultura de SP, com produção e direção de Fernando Faro.

Quando Batatinha morreu, uma mocinha paulistana chamada Adriana Clemente Moreira de Almeida estava prestes a completar 27 anos de vida. Não sei de que maneira Adriana conheceu a obra do compositor baiano. Sei que ela costumava freqüentar as reuniões do Mutirão do Samba no CMTC Clube onde mostrava os sambas que descobria em velhos discos de vinil. E, cantando aqui e ali, a moça tomou gosto, passou a estudar música e optou por ser cantora.

Este breve histórico de Adriana está no encarte de seu CD de estréia, lançado pela gravadora CPC-UMES, intitulado “Direito de Sambar – Adriana Moreira canta Batatinha”.

No repertório, “Hora da razão” e “Diplomacia” (parcerias com J. Luna), “Espera” (parceria com Ederaldo Gentil), “Jardim suspenso” (parceria com Capinam), “Conselheiro” (parceria com Paulo Cesar Pinheiro), “Indecisão” (parceria com Jairo Simões), “Bolero” (parceria com Roque Ferreira), “Rosa Tristeza” (parceria com Edil Pacheco) e, só de Batatinha, “Direito de sambar”, “Imitação”, “Sorte do Benedito”, “Sorriso de mulher”, “Ago – Ago” e “Salve o Presidente”.

São sambas urbanos, sambas-canções, sambas de carnaval. Marcus Vinícius de Andrade, diretor artístico da CPC-UMES e produtor do disco, com muita propriedade, escreve no encarte que a música de Batatinha “quase nada tem a ver com o samba-de-roda, com o samba do Recôncavo, marcado a prato e faca: ao contrário, ela se insere na grande tradição do samba urbano brasileiro (...)”.

Só um grande compositor é capaz de um verso como “na imitação da vida ninguém vai me superar/ pois sorrio da tristeza se não acerto chorar”.

Adriana Moreira é a responsável pela idealização, pela pesquisa de repertório e pela coordenação do projeto. Participou, também, da mixagem das faixas, ao lado do já lendário técnico José Luiz Costa, o Gato, e de Edmilson Capelupi, que participa do disco como arranjador e violonista.

Edmilson Capelupi assina os arranjos de nove faixas do disco, Eduardo Gudin assina três e Everson Pessoa – do Quinteto em Branco e Preto –dois.

A produção não economizou e são inúmeros os grandes músicos que acompanham Adriana Moreira nesta empreitada. Jorge Helder, no contrabaixo, Toninho Carrasqueira, na flauta, Nailor Proveta, no sax e clarinete, Sidnei Burgani, no trombone, Wilson das Neves, na bateria, Maurílio Oliveira, no cavaquinho, Fábio Torres, no piano, Luizinho 7 Cordas, e percussionistas como Guello, Jorge Neguinho e os meninos do Quinteto em Branco e Preto representam muito bem todos os outros que enriquecem a sonoridade do disco com suas participações.

Adriana Moreira, em seu primeiro disco, mostra toda a desenvoltura e maturidade que alcançou em anos e anos de muitos palcos. Tem uma belíssima voz e sabe “dizer” as letras. Merece a produção que a gravadora lhe proporciona. Merece, na minha opinião, que o disco seja um sucesso.

O site da gravadora é: www.umes.org.br/cpc

Maria Luiza Kfouri
16/08/2006

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